“É a história de uma família de mulheres”, afirma mãe aprovada junto com as filhas na UFSM

“É a história de uma família de mulheres”, afirma mãe aprovada junto com as filhas na UFSM

Fotos: Arquivo pessoal

Na manhã da última segunda-feira, Louise da Silveira, 39 anos, confirmou a vaga no doutorado em Educação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Era um sonho sendo realizado. Mas, para ela não foi nem de perto a maior alegria do dia. Na mesma data, as filhas Beatriz, 19 anos, e Bianca, 17, foram aprovadas na mesma instituição pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu).

A mais velha ingressará em Jornalismo, curso que sempre sonhou em fazer. A caçula conquistou uma vaga em Arquitetura e Urbanismo, um dos cursos mais concorridos da universidade. A imagem das três sorrindo, celebrando a tripla aprovação, rapidamente se espalhou pelas redes sociais e mobilizou centenas de mensagens de carinho e incentivo.


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​Por trás da conquista simultânea, há uma trajetória construída ao longo de décadas, a começar pela infância de Louise. Ela conta que foi criada por uma mãe solo, a dona Araci, e cresceu ouvindo que os estudos eram o único caminho possível. No primeiro dia de aula, ainda nos anos iniciais, lembra da mãe dizer que aquele seria o primeiro passo rumo à universidade.


– Minha mãe nunca nos deu outra opção que não fosse estudar – conta Louise.

Anos depois, já adulta, repetiu o mesmo ensinamento com as filhas. Casou-se jovem, separou-se ainda durante a graduação e criou Beatriz e Bianca com o apoio da avó.

– Eu saía para estudar e trabalhar quando elas ainda estavam dormindo e, muitas vezes, voltava quando já tinham dormido de novo. Quem acompanhou de perto o início da vida escolar delas foi minha mãe. Sem ela, nada disso seria possível – afirma.

Formada em Letras, com mestrado em Geografia, Louise construiu sua trajetória acadêmica junto ao desafio da maternidade. Para ela, o exemplo sempre foi a principal ferramenta de incentivo:

– Elas me viram estudar a vida toda. Viram a avó lendo. A leitura e o conhecimento sempre fizeram parte da nossa rotina. 

Louise conta da relação da família com a leitura


Disciplina como base

A preparação das filhas para o Enem não se resume apenas ao último ano. Segundo Louise, sempre houve prioridade para a escola e responsabilidade com as tarefas. Dormir sem fazer o tema de casa não era uma opção.

– Nunca cobramos nota específica, mas cobramos disciplina. Sempre houve horário, rotina, limites. O estudo é uma condição da nossa família – afirma.

Beatriz e Bianca foram criadas pela mãe e pela avó na região oeste da cidade

Beatriz, a filha mais velha, já havia ingressado no ensino superior em outro curso. Mas, como seu grande objetivo era o Jornalismo, seguiu estudando. Mesmo sem cursinho preparatório, conciliou os estudos com a graduação até alcançar a aprovação desejada. Bianca, por sua vez, fez o Enem pela primeira vez ao concluir o Ensino Médio. Durante o último ano, dividiu o tempo entre os estudos e o trabalho como jovem aprendiz no Senai. Foi aprovada de primeira.

– Ela sabia que, se o rendimento na escola caísse, teria que deixar o trabalho. Mas deu conta – afirma a mãe, orgulhosa.


Uma casa de mulheres

Beatriz e Bianca estudaram durante toda a vida em escolas públicas de Santa Maria. Primeiro na Escola Municipal Pinheiro Machado e, depois, na Escola Estadual Augusto Ruschi. Para a mãe, essa vivência foi determinante na formação acadêmica das filhas. Mais do que isso, a união desses fatores também carrega um significado social.

– Na periferia, muitas vezes o jovem termina o Ensino Médio e já precisa ir direto para o mercado de trabalho. Na nossa casa, sempre foi diferente: primeiro estudar, depois trabalhar – diz.

Educadora de formação e militante do movimento negro, Louise também entende a conquista como um símbolo coletivo:

– Sou uma mulher negra, criada por uma mãe solo, criando duas meninas. É uma história de mulheres. Uma casa de mulheres.

A casa de mulheres celebra mais uma aprovação das integrantes


Repercussão e significado

A dimensão que a publicação tomou nas redes sociais surpreendeu a família. Professores das meninas comentaram orgulhosos, ex-alunos de Louise relembraram passagens da sala de aula e moradores da cidade celebraram o fato de Santa Maria ganhar destaque por uma notícia positiva. Agora, mãe e filhas vivem a expectativa pelo início do semestre letivo.

– Fiquei muito feliz que as pessoas ainda se alegrem com a felicidade do outro. Nossa história era algo íntimo, familiar. Ver que tocou tanta gente foi emocionante – afirma Louise. 


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